Tenho lidado com problemas de enxerto de pele, fiquei
sabendo que um banco de doação de pele não é viável, pois esta, sendo alheia,
não adere por muito tempo à pele do enxertado. É necessário que a pele do
paciente seja tirada de outra parte de seu corpo, e em seguida enxertada no
lugar necessário. Isto quer dizer que no enxerto há uma doação de si para si
mesmo.
Esse caso me fez devanear um pouco sobre o número de outros
em que a própria pessoa tem que doar a si própria. O que traz solidão, e
riqueza, e luta. Cheguei a pensar na bondade que é tipicamente o que se quer
receber dos outros – e no entanto às vezes só a bondade que doamos a nós mesmos
nos livra da culpa e nos perdoa. E é também, por exemplo, inútil receber a
aceitação dos outros, enquanto nós mesmos não nos doamos a auto-aceitação do
que somos. Quanto à nossa fraqueza, a parte mais forte nossa é que tem que nos
doar ânimo e complacência. E há certas dores que só a nossa própria dor, se for
aprofundada, paradoxalmente chega a amenizar.
LISPECTOR. Clarice, 1920 – 1977A descoberta do Mundo: Doar a
si próprioRio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 304
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