100 dias de gratidão

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

desabafo

Anos sustentando relações vampirescas e de repente tudo se rompe. Vem aquele cansaço de ser sempre o estepe, de ser sempre aquela amiga que vai tá ali pra ouvir a qualquer hora, aquela que você pode ligar bêbado chorando 4 da madrugada que vai te ouvir, que pode mandar uma msg terça três da tarde que sai de onde estiver pra te dar colo. Não! Cansei. Pela primeira vez na vida quero ser cuidada, quero poder contar da minha vida sem ser interrompida pra ouvir reclamações de namorados, pais, faculdade. Porra, qualquer tipo de relação tem que ser uma via de mão dupla, e as minhas não estão sendo. Acredito que muito pela minha personalidade, de ouvir, cuidar, amparar, mas eu não ando ganhando nada, só estou sendo sugada, estão retirando tudo de mim e oferecendo muito pouco em troca, estou definhando. Tenho que cortar isso agora, enquanto ainda é tempo. E agora não adianta mais, já foi rompido esse campo, não dá pra voltar atrás, se você notar uma diferença no meu comportamento em relação a você é porque possivelmente você é um desses vampirinhos que tanto me sugou. Preciso de pessoas que se interessem genuinamente e verdadeiramente por mim, que me atenda em um momento de desespero, que se interesse pelo meu dia, que me pergunte sinceramente se eu estou bem, e independente de qual for a resposta esteja a fim de ouvir-me. Isso é só um desabado de quem está há tempos só ouvindo e acudindo os que me rodeiam, tentando agradar a qualquer custo por medo de perder, sempre falando sim pra tudo por medo de ser deixada de lado, mas enfim aprendi que aqueles que realmente se importam comigo vão continuar apesar do meu não, dos meus problemas e da minha cara feia, porque eu continuei e sempre continuarei por eles. Mas só por eles.

domingo, 14 de outubro de 2012

crônica do amor que já se foi

De: C.
Para: A.

My dear,

tenho sofrido tanto com essa sua visão sobre as coisas, minha menina sempre tão geniosa e incisiva nas suas colocações.

Preciso frisar mais uma vez que sim, você me fez muito feliz, que você me mostrou a luz quando estava tudo escuro, mais que isso, você trouxe cores. Você fala sobre eu ter cansado de ensinar, quando na verdade foi eu quem tanto aprendi contigo. Tá certo que sou bem mais velho, tenho mais vivencias, no entanto você me desarmou completamente, na sua frente eu era apenas um adolescente recém saído da puberdade tendo que descobrir o que fazer com uma porrada de sentimentos controversos. Tive que reaprender, pois você se mostrou diferente de todas as outras, e foi exatamente isso que me fez te amar. Tudo que eu sabia e tentava com você não dava certo, demorou até descobrir o seu segredo, nesse dia mesmo que você diz ter se apaixonado eu estava nervosíssimo sem saber o que fazer pra te ganhar, havia uma necessidade palpante de te ter, faria qualquer coisa que me pedisse. Eu já estava apaixonado. Daí por muito tempo foi alegrias, tinha o maior prazer em ver seu rosto interessado quando eu lhe contava minhas historias, morria de amores quando você aparecia de surpresa com esse jeito façanho de menina, sem contar no êxtase que era o nosso sexo. Fomos felizes. Mas concordo com você, nos perdemos pelo caminho, não sei quando e nem o porquê, acho que foi gradativo e quando nos demos conta era irreversível, já tínhamos nos machucado muito. Até concordo com você que hoje juntos somos dor, mas tenho que ressaltar que separados também é dor. Dor por não saber como você está, dor ao discar impulsivamente o seu numero mas desligar sem completar a chamada. Dor ao ir ao mercado e ver o brócolis tão verdinho, pronto pro seu prato preferido e não ter porque comprar. Dor em saber de você por outros. Dor. Mas não sei o que podemos fazer quanto a isso, é me machucando que acredito que você precisa viver outras experiências, conhecer outros gostos pra depois decidir o seu preferido. E ai quem sabe, minha menina, possamos viver em uma casinha colorida de Amsterdã, ouvindo Pink Floyd, bebendo vinho e fumando nosso cigarro enquanto eu cozinho pra gente. Quem sabe…

Com todo carinho e amor de sempre,


C.

crônica do amor que já se foi


De: A.
Para: C.

C,

como esquecer você, que veio tão impetuoso e me apresentou o mundo, o seu mundo. Você foi o primeiro, me moldou à sua forma e à sua medida, aproveitando as suas incontáveis e deliciosas experiências pra me ensinar, me impregnar e me fazer apaixonar pelas suas paixões, ou você acha que eu iria me encantar com Pink Floyd se você não tivesse me contado de maneira tão gostosa sobre o show deles que você assistiu na Inglaterra? Ou ainda que ostras se tornariam meu prato favorito se você não tivesse me oferecido de maneira tão sensual? E que dirá esse sonho arrebatador de morar no sul da Holanda vivendo de amor e embriagantes em meio aos campos de tulipas e aos cafés? Nada disso existiria sem você.

Você não sabe, mas me apaixonei por você no nosso segundo encontro, quando você atenciosamente me contou toda a historia do vinho que estávamos bebendo enquanto cozinhava, hoje posso confessar-lhe que não prestei atenção em uma só palavra, enquanto você falava de safras, cheiros e produção eu só conseguia pensar no efeito que esse homem extremamente sexy e tão a vontade na sua cozinha possuía sobre mim. Você me ganhou ali.  Mas infelizmente o tempo foi levando essa displicência e jovialidade que me fez cair de amores e foi mostrando um outro lado, mais duro, frio e sofrido. Um lado que não suportava mais nossas discussões casuais sobre caetano x chico, carlton x hollywood, que não via graça em beber vinho e falar banalidades. E tentando me adaptar a isso fui deixando pra trás as sutilezas, as surpresas e a emoção. De forma que perdemos o que a nossa relação tinha de mais especial, a leveza. Já não conseguíamos ser fogo e paixão, não conseguíamos beijar na boca e nos amar no chão. Ali já não era mais aquele homem de 40 com uma bagagem imensa de mil vidas vividas e uma menina de 20 querendo abraçar o mundo desse homem, casando perfeitamente. Éramos dois estranhos ainda apaixonados, se traindo e pedindo perdão por amar de mais. Era dor.

Por tudo isso, uso a frase daquela música triste “tornar o amor real é expulsá-lo de você para que ele possa ser de alguém”, quem sabe é isso que você precisa, pode ser que tenha se cansado de ensinar, de lidar com essa grande diferença de mundo e de vivencias e eu tenha me cansado de tentar ser uma pessoa que eu não sou, de tentar fingir ter uma idade que eu não tenho, quem sabe estamos prendendo o amor aqui dentro e impedindo que ele torne-se real. É com dor, meu querido, que eu falo pra você: vai tentar ser feliz, desejo de coração que você se encontre e volte a ser aquele homem livre e sorridente que conheci e me apaixonei.

Sua, sempre sua,

Ana