100 dias de gratidão

segunda-feira, 15 de junho de 2015

novo

Meus queridos,

Desculpe os últimos meses de ausência física, de afetos e de palavras. Às vezes é preciso se afastar, tomar espaço e respirar.

Tenho feito um caminho. Comprei uma passagem e fiz uma viagem de autoconhecimento. Conheci a terra que dizem ser das pessoas frias e que por ironia do destino encontrei calor e carinho. Lá percebi duas coisas, primeiro que não dá pra ficar sem isso, calor é fundamental e carinho constitucional; segundo, que mesmo tendo encontrado pessoas tão especiais pude reafirmar que sou minha melhor companhia, no fundo só tenho a mim mesma. E que bom que me tenho.

O bom de viajar é poder se deparar com o óbvio que de tão óbvio não enxergamos: o mundo é muito grande e nele cabe muita coisa. Isso me assustou, senti na pele o quão pequena sou perto de tudo que está por ai.

As circunstâncias me levaram até uma outra parte do mundo que estava escondida. A parte do avesso. Estou re-conhecendo e aprendendo a lidar com esse avesso há seis meses, metade de uma ano, muito tempo. Solidão tem sido o sentimento presente nesses meses.

Foi necessário e vital me afastar de vocês. Não me entendam mal, sou muito grata a cada um, mas não tem como mergulhar no meu mar estando de boia. Vocês são minhas boias, mas eu precisava afundar.

Precisei de tempo e espaço para poder pensar e sentir, nada mais que isso. Pensei muito em quem eu sou, quem eu quero ser, o que eu represento para quem me é importante. Não sou insubstituível, que bom. Que alivio.

Depois de um longo mergulho vem uma respiração profunda. Tempo de sentir. Tenho estado muito mais sensível. Esse lindo, grande e cruel mundo tem me doído tanto. A dor do outro tem me comovido.

Tenho vivido um momento muito importante da minha existência. Momento de transformação, veja o peso dessa palavra, ela é maior e mais densa que simples mudança. É tempo de escolhas, de renuncias, de me fazer, me tornar e ser gente. Transformar. Transmutar. Transcender. Ir além, de mim e do que esperam de mim.

Junto a isso tudo, no meio de toda essa história, há um personagem muito importante, um anjo que veio mostrar que tudo de mais valioso que existe neste mundo é o amor.

Só.

Simples assim.

Veja bem, fui testemunha de que o amor pode transformar uma vida. E isso é uma coisa muito grande. Cada um só pode dar aquilo que tem. No entanto, o pouco que se tem, se dado com amor, pode ser tudo para um outro alguém.

Amor vale a pena. Transcende existências. O amor salva vidas.

É uma história que ainda não teve o seu fim escrito, tudo pode acontecer. É angustiante pensar isso, ainda mais para uma pessoa como eu que sempre gosta de ter o controle sobre tudo. Não tenho controle de nada. Como lidar com isso? Aprendendo a arte do desapego. 

Desapego não significa desamor, ao contrario, desapego é uma forma de amor. É liberdade e é escolha. É reconhecer que somos muito pequenos diante de tudo que existe no universo. Quando chega esse momento na vida, torna-se fundamental lidar com o nosso egoísmo primário, nosso ego sedento de atenção e preenchimento. É preciso deixar ir. Deixar chegar. Estar aberto. Disposto.

Esse texto demorou meses para ser gerado. Foi um parto. Começou bem pessimista, triste até, e terminou falando de amor e liberdade, para mim, as principais coisas da vida. Fica um sentimento de transcendência. Fui além de mim mesma. Sou outra pessoa diferente daquela que no primeiro dia do ano comprou a passagem e foi atrás de sonhos. Que bom que mudei, só evolui quem consegue desprender de crenças, gostos, pessoas. É um caminho, um longo caminho.

Hoje, dia quinze de junho de dois mil e quinze, encerro um ciclo na minha existência. Hoje me proponho a começar um novo caminho com mais coragem e ainda mais amor. Ninguém pode escolher de onde veio, mas podemos escolher para onde vamos. E eu, como peregrina que sou, quero percorrer todo esse caminho, podendo me dar a liberdade de mudar de estrada, de dizer adeus, de abrir mão, de me arriscar em atalhos, sempre com esperança no peito, porque aprendi de forma mais cruel que a vida ta ai para ser vivida. Vale a pena viver!




"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,  sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza! A vida inventa! O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. Viver é muito perigoso; e não é não. Nem sei explicar estas coisas. Um sentir é o do sentente, mas outro é do sentidor."

Fragmento do livro "Grande sertão Veredas" de Guimarães Rosa.