100 dias de gratidão

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Querido Felipe,

Tenho pensado tanto em você nesses últimos dias, já faz quase três meses e ainda sinto sua falta constantemente. Penso sempre no nosso último encontro, você foi gentil comigo. E distante. Me deu apoio, não ombro. Sei que não posso exigir isso de você, mas é que depois de tantos anos eu me acostumei com outro Felipe.

Eu sei, eu sei, você deve ta pensando: “você que escolheu isso, agora aceita”. Só queria que você entendesse o meu lado, não estávamos nos fazendo bem, é triste, mas é a verdade. Fomos nos perdendo um do outro e isso foi necessário para que não nos perdêssemos de nós mesmos. Sei também que você viu essa minha viagem como um sinal de franqueza, e de certa forma foi mesmo, precisava fugir de todo esse caos [o que foi em vão]. Mas se você quiser isso a gente conversa quando eu voltar.

Por agora quero muito saber de você, quero saber como vai no trabalho, como vai a família [ainda anda brigando muito com seu pai?], e o nosso Tico? Preciso saber que você tá bem para que eu possa aquietar meu coração.

Quanto a mim, estou aqui andando pelo mundo, chorando ao telefone, prestando muita atenção, divertindo gente e sentido falta de tudo e todos. Há dias acordo e não tem ninguém ao meu lado – os meus amigo e amores, cadê - vou à Berlim e à Praga e depois volto ao Brasil para recuperar o que eu perdi.

Te mando retalhos de amor

Carol.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

bilhetes

C.

resolvi escrever só pra dizer que mal acabei de me despedir de você e já estou sentindo sua falta. dizer que quero muitas outras semanas como essa. dizer que quero acordar muitos outros dias –e noites- com beijos nas costas e que agora nem me importo de dividir os meus cigarros com você.

beijinhos na ponta do nariz,M


Ps: espero que você tenha feito uma viagem tranquila, fique bem.
“Às vezes sinto que sou espécie de atalho: ajudo no caminho sem nunca ser o ponto de chegada. Não sou destino, apenas distração. É a mim que recorrem os interessados em outras. Usam-me para teste, fazem-me de ensaio, levam minha proteção e cospem minha carne mastigada quando já não lhes serve mais. Devolvem um coração pisoteado que depois só pensa em se fechar de vez para qualquer sentimento do mundo.”

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Doar a si próprio

Tenho lidado com problemas de enxerto de pele, fiquei sabendo que um banco de doação de pele não é viável, pois esta, sendo alheia, não adere por muito tempo à pele do enxertado. É necessário que a pele do paciente seja tirada de outra parte de seu corpo, e em seguida enxertada no lugar necessário. Isto quer dizer que no enxerto há uma doação de si para si mesmo.

Esse caso me fez devanear um pouco sobre o número de outros em que a própria pessoa tem que doar a si própria. O que traz solidão, e riqueza, e luta. Cheguei a pensar na bondade que é tipicamente o que se quer receber dos outros – e no entanto às vezes só a bondade que doamos a nós mesmos nos livra da culpa e nos perdoa. E é também, por exemplo, inútil receber a aceitação dos outros, enquanto nós mesmos não nos doamos a auto-aceitação do que somos. Quanto à nossa fraqueza, a parte mais forte nossa é que tem que nos doar ânimo e complacência. E há certas dores que só a nossa própria dor, se for aprofundada, paradoxalmente chega a amenizar.


LISPECTOR. Clarice, 1920 – 1977A descoberta do Mundo: Doar a si próprioRio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 304

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

considerações finais

C.

Deixei suas coisas na estante e no armário. Sei que tudo tinha um grande valor pra você e não achei justo não devolvê-las. Comprei uma palheta nova para o seu violão, a sua já estava tão gasta. Só queria poder ficar com o anel, tem problema? Apenas para não me esquecer do que já fomos. Eu sei que feliz é algo que você não vai ficar. Mas antes de você me jugar, peço que pense bem. Pra que continuar tentando fazer dar certo, se já nos machucamos tanto? Claro que guardei todos os momentos que passamos, mas é apenas isso. Não quero nos machucar mais, não quero que o último ano se perca em nossas lembranças. Os livros que você me emprestou estão na escrivaninha ao lado dos fones e da nossa foto. Não vai me fazer bem ficar com ela.

Obrigada por me fazer tão especial.

                                                                                                                          M.



Ps: Meu coração está em baixo do travesseiro.cuide bem dele.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

bilhete para alguém especial

Luís querido,

Sinto falta de estar mais com você, de conversar sobre coisas banais, de beber cerveja e rir da vida alheia.

Sei que você não entrou na minha vida por acaso, me espelho e aprendo com você constantemente. Gosto muito da forma que você me ouve e do quanto você se preocupa comigo. Eu já te disse isso uma vez e torno a repetir: você tem uma luz muito forte que contagia quem estiver ao seu redor. Acho que foi essa luz que me fez aproximar de ti e que acarretou toda essa admiração e carinho imenso que tenho por você.

Eu queria te agradecer por tudo isso, mas acho que agradecer não é o suficiente. Quero retribuir. Retribuir com um sorriso, com um abraço, com uma lembrança, retribuir com confiança. Sendo assim, não importa o que aconteça, você pode sempre contar comigo, irmão.

Fique bem, estou sempre aqui torcendo por você.


Marina.

falta

Preciso de um estímulo suficientemente forte para continuar isso tudo. Um motivo que me dê coragem para levantar dessa cama e seguir, quando tudo que mais quero é continuar aqui neste looping eterno entre dormir e “viver” a vida de personagens de livros e filmes. Careço de algo que me desperte outra vez a crença de que tudo pode dar certo, de que tudo ainda vai dar certo. Tenho gravado em mim que ninguém chora para sempre, mas o meu para sempre está demorando muito a chegar.

formigas

As quatro paredes. Do meu quarto, me espremendo e me limitando e diminuindo, indo… As quatro paredes da minha mente, fazendo com que eu me sinta presa dentro de mim mesma, parece que todas as minhas perspectivas estão desgastadas e falhas; as quatro paredes dos lugares em que vou, sempre os mesmos, sempre monocromáticos, todos os rostos se misturando. Estou me transformando numa formiga, sabe? Junto com outras formigas. E não suporto, não suporto essa ideia. Eu não quero ser uma formiga. To me sentindo muito sufocada e definitivamente não quero isso pra mim. Não me importa se vocês almejam essa vidinha monótona, de namorar um carinha certinho por cinco anos, formar, casar de véu e grinalda, ter três filhos e viver o resto da sua vida nesse marasmo, vendo Faustão enquanto seu marido ronca bêbado no sofá. Eu não quero isso pra mim, e só queria que vocês me respeitassem por essa escolha. Não suporto essa necessidade de manter no trilhos, fazendo tudo igual, tendo que ir à igreja todo domingo, tendo que guardar a minha virgindade o máximo que eu puder. Vocês tão me saindo um bando de hipócritas, que vestem seus lindos vestidinhos colados no corpo e vão dançar funk até o chão, vão se insinuar e pagar de gostosa se esfregando nos namoradinhos, mas que julgam e criticam quem vai pra lugares diferentes pra socializar, ouvir boa música e beber cerveja. Outra decadência e incoerência é vocês, que pregam o respeito e a fé acima de tudo, serem tão preconceituosos e desrespeitosos com quem gosta de pessoas do mesmo sexo, pra vocês é mais certo ser a outra ou saber se traída mas nada fazer, simplesmente para manter as aparência, não as julgo, foi assim com a mãe de vocês e provavelmente é isso que vocês passaram para as suas filhas. Mas eu não quero isso pra mim, estou cansada dessa farsa toda, essas normas estão cada vez mais me espremendo e sufocando, preciso de fugir enquanto ainda há tempo.

Pequenos lembretes para você, Marina:

Viva devagar, você tem tempo, tem tempo para ficar cansada e para descansar. Para sofrer e para não sofrer e tudo mais, tem muito tempo ainda, muito.

As coisas vão melhorar, é normal se sentir perdida, você só precisa fincar os pés no chão. E depois, dar um passo de cada vez.

Um dia Marina todas as coisas que você julga importante, hoje, já não serão mais, isso vale para a faculdade, para os amigos que você tem e para os amores que você tem, um dia tudo vai murchar, não adianta o quanto você vai cultivar, o quanto você vai cuidar bem, nada pode vencer a força dominante do tempo, nada. Mas pense o seguinte. Um dia, nada vai valer a pena, no outro Tudo vai valer a pena, tudo. E então, tudo começa novamente, é um ciclo torto, não existe plenitude em se estar vivo, não se é feliz o tempo todo, não se é triste, seguro, não se é nada plenamente.

Se dê o direito de se sentir perdida e não cobre de você mesmo a capacidade de resolver algo que está fora da sua alçada, entende? Você não tem poderes místicos para resolver as coisas da vida, os sentimentos, você não escolhe o que você sente, você é o que você é, o que você quer ser não é nada, mas sim o que o mundo vai fazer de você. Sabe?


Pense assim, não se preocupe, as coisas vão dar certo.