100 dias de gratidão

sábado, 19 de maio de 2012

O grande espetáculo



Desde sempre uma de suas maiores paixões é o circo. Uma lembrança antiga que tenho é a cena de nós duas chegando a um deles, bem grande, cheio de luzes, trailers, jaulas, comprando pipoca e maçã do amor, arquibancadas, leões e palhaços. Tão antiga que ainda havia animais, muitos, e eles eram sua atração favorita. Lembro-me que sempre chegávamos mais cedo para sentarmos em um lugar com visão ampla, não podíamos perder nada. Cenas que nem essa se repetiram por muitas e muitas vezes. Sempre achei bonito ver os seus olhos verdes brilharem assistindo as apresentações. Acho bonito como você vibra, aplaude, se amedronta, sorri. Você se entrega ao circo de uma forma única. Acredito que toda essa paixão deva vir da sua fantasia sobre a liberdade que se tem quem mora no circo. Você sempre tão livre deve se encantar muito com essa coisa de não se prender a lugar algum, de chegar a uma cidade qualquer, encantar, fazer sorrir e em seguida partir. É um recomeçar sempre, recriar a cada momento. É poder ser uma a cada espetáculo. O circo em si é muito bonito, ele traz consigo ilusão, felicidade e fantasias. O circo lembra esperança. Ali durante aquelas duas horas de espetáculo se vive uma vida, ali se acredita em mágicos, se encanta com animais espertos, vive a adrenalina de acrobatas e equilibristas, sente a alegria mais pura dos palhaços. É tudo muito bonito. Mas tem o segundo ato, quando as luzes se apagam e a lona cai, tenho por mim que você não gosta de pensar nesse momento, pois ele acaba com essa magia tão bonita, mas é importante pensar que nas suas horas de folga o palhaço chora, a bailarina quando lava o rosto tem uma tristeza que mostra os sonhos perdidos, os equilibristas treinam a corda bamba em constante repetição sem um único sorriso ou gesto de comemoração. É sempre a mesma coisa, pra eles não há renovação. É importante olhar para esse outro lado, é importante para que possamos ver que toda moeda tem duas faces, que mesmo um palhaço triste pode fazer outro rir. Isso é o bonito. Assim como é bonito o fato de que no seu momento de vida mais triste fomos ao circo, é como diz aquela música antiga “A esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar”. E no circo o meu show preferido e mais bonito é ver os seus olhos verdes brilharem com o espetáculo a sua frente.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Cá estou ilhada na bagunça do meu quarto, depois de cinco anos resolvi mudar tudo, isso aqui já não me cabia mais. E entre uma parede pintada, um armário esvaziado, uma cama fora do lugar encontrei tanta coisa que eu não me lembrava, coisas que não precisavam ser vistas e coisas que me deixou com muita saudade. É engraçado pensar o rumo que tudo tomou. Confesso que foi indiferente encontrar uma foto do que a gente pode chamar de primeiro amor, é estranho ver depois de tanto tempo uma pessoa que foi tão importante, causadora de inúmeros sentimentos bons e outros nem tão bons e nada sentir. Nada; Numa carteira velha encontrei um cartão de aniversário do ano de 2002 do meu paizinho me desejando felicidades porque amor eu já tinha muito. Foi feliz ler isso, é muito bom me lembrar que posso carecer de qualquer coisas, mas amor eu sempre vou ter, e muito; Foi no mínimo desconfortável encontrar um cd de fotos de 2008 e ver que aquelas pessoas que me fizeram tão felizes hoje não significam nada pra mim. Na ultima gaveta da estante, aquela mais escondida, encontrei uma carta de amor que deveria ter sido entregue mas que por algum motivo não foi. Senti vergonha da forma apaixonada e exagerada com que eu me declarava, botando aquilo, que hoje acredito que nem era amor, acima de qualquer coisa. Agradeci mentalmente nunca tê-la entregue. E encontrar aquela blusa de frio branca que tantas vezes foi emprestada para uma pessoa muito querida foi bom. Foi gostoso me lembrar daquele tempo, daquela alegria gratuita e amor displicente que vivíamos. Deu saudades, mas não vontade de voltar.
É interessante ver que tudo passa, que coisas que já significaram muito hoje não passam de recordações velhas. Que outras que foram muito importantes continuam sendo e sempre serão, mesmo que seja só na lembrança. É interessante ver o quanto mudei nesses cinco anos. E como isso é refletido aqui, nesse pequeno quarto que foi palco de toda essa história.



Also: depois de ter escrito esse texto breguinha encontrei aquela velha borboleta do meu mural e pude perceber o óbvio: não sou mais a mesma, mas ainda sou e sempre serei a mesma.

adeus você

Vivemos tudo de mais lindo que duas pessoas podem viver juntas. Conhecemos os melhores prazeres, melhores gostos, melhores sentimentos. Fomos muito felizes. Fomos amigos, fomos amantes. Acreditamos que éramos feitos um pro outro. A gente se dava tanto que nem se dava conta do resto do mundo. E um dia você decidiu, sozinho, que isso já não te sustenta mais. Decidiu que tem que ir embora. Sem brigas. Sem mágoas. E, como se não bastasse, teve a coragem de dizer “Vê se te alimenta e não pensa que eu fui por não te amar”. Cara, isso é a pior coisa que poderia ter sido dita. Já nos amamos loucamente, já fomos um só. Conheço cada detalhezinho do seu corpo e você conhece cada fio do meu cabelo. Como que você pôde ter a ousadia de mandar eu me alimentar e ainda dizer que foi, mas não foi por não me amar. Covarde. Foi por que então? Foi porque é fraco e nunca teve coragem de dizer o que pensa. Nem mesmo agora, no final, tem coragem de dizer a verdade. Foi porque não aguenta mais meus dramas? Foi porque nosso sexo não encaixa? Foi porque quer ter filhos? Qualquer coisa, menos essa desculpa que você deu.


Só uma última coisa: Vai! Mas vai pra puta que te pariu.

Sobre o tempo e suas caras

É meio louco e agonizante pensar no tempo. Tempo esse que passa e a gente muda, a gente muda enquanto o tempo passa.

Ele é estranho quando penso que já passei metade da minha faculdade, que no final de dois anos eu já terei encerrado essa etapa tão importante da minha vida. É incerto se penso no que virá depois, são tantos planos, tantos desejos, tanta esperança de um futuro bom, mas há o medo de fracassar, de mais uma vez não ter coragem de fazer o que eu quero.

O tempo pode ser injusto quando resolve brincar com os casais apaixonados, quando, com o seu passar, leva esses casaizinhos que outrora trocavam intimidades e juras de amor a tornarem-se simplesmente dois estranhos. Mas também é compreensível naqueles momentos em que com muito afinco algumas coisas foram negadas.

Ele pode ser muito confortante quando penso na forma em que coloca as coisas no lugar, como naquele velho ditado “o tempo é o melhor remédio, cura tudo”. E ele, em sua forma, cumpriu isso direitinho, colocou tudo em um lugarzinho apropriado. Em contrapartida, o tempo é maquiavélico nos levando a esquecer de coisas que deveriam ser inesquecíveis. Me fez esquecer o barulho gostoso da gargalhada da minha avó, o cheiro bom de um perfume que foi importante, esquecer dos meus desejos e esquecer o quanto era gostoso aquele abraço.

É muito egoísta, parece que por graça demooora a passar quando esperamos por alguém que há muito não encontramos e quando, enfim, estamos com a tal pessoa passa ligeiro ligeiro, brincando com a gente.

E, por fim, ele é um lindo quando me permite usar uma semana inteirinha, 168 horas, só pra mim, sem ter que encontrar ninguém que eu não tenho vontade, sem ter que dar satisfações, sem ter que me preocupar em correr pra não perder o ônibus, sem ter que fazer nada, apenas poder ficar o dia todo pensando na vida, nos planos, no tempo.


[ao som de O Tempo – Moveis Coloniais de Acaju]