100 dias de gratidão

domingo, 14 de outubro de 2012

crônica do amor que já se foi


De: A.
Para: C.

C,

como esquecer você, que veio tão impetuoso e me apresentou o mundo, o seu mundo. Você foi o primeiro, me moldou à sua forma e à sua medida, aproveitando as suas incontáveis e deliciosas experiências pra me ensinar, me impregnar e me fazer apaixonar pelas suas paixões, ou você acha que eu iria me encantar com Pink Floyd se você não tivesse me contado de maneira tão gostosa sobre o show deles que você assistiu na Inglaterra? Ou ainda que ostras se tornariam meu prato favorito se você não tivesse me oferecido de maneira tão sensual? E que dirá esse sonho arrebatador de morar no sul da Holanda vivendo de amor e embriagantes em meio aos campos de tulipas e aos cafés? Nada disso existiria sem você.

Você não sabe, mas me apaixonei por você no nosso segundo encontro, quando você atenciosamente me contou toda a historia do vinho que estávamos bebendo enquanto cozinhava, hoje posso confessar-lhe que não prestei atenção em uma só palavra, enquanto você falava de safras, cheiros e produção eu só conseguia pensar no efeito que esse homem extremamente sexy e tão a vontade na sua cozinha possuía sobre mim. Você me ganhou ali.  Mas infelizmente o tempo foi levando essa displicência e jovialidade que me fez cair de amores e foi mostrando um outro lado, mais duro, frio e sofrido. Um lado que não suportava mais nossas discussões casuais sobre caetano x chico, carlton x hollywood, que não via graça em beber vinho e falar banalidades. E tentando me adaptar a isso fui deixando pra trás as sutilezas, as surpresas e a emoção. De forma que perdemos o que a nossa relação tinha de mais especial, a leveza. Já não conseguíamos ser fogo e paixão, não conseguíamos beijar na boca e nos amar no chão. Ali já não era mais aquele homem de 40 com uma bagagem imensa de mil vidas vividas e uma menina de 20 querendo abraçar o mundo desse homem, casando perfeitamente. Éramos dois estranhos ainda apaixonados, se traindo e pedindo perdão por amar de mais. Era dor.

Por tudo isso, uso a frase daquela música triste “tornar o amor real é expulsá-lo de você para que ele possa ser de alguém”, quem sabe é isso que você precisa, pode ser que tenha se cansado de ensinar, de lidar com essa grande diferença de mundo e de vivencias e eu tenha me cansado de tentar ser uma pessoa que eu não sou, de tentar fingir ter uma idade que eu não tenho, quem sabe estamos prendendo o amor aqui dentro e impedindo que ele torne-se real. É com dor, meu querido, que eu falo pra você: vai tentar ser feliz, desejo de coração que você se encontre e volte a ser aquele homem livre e sorridente que conheci e me apaixonei.

Sua, sempre sua,

Ana

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