De: A.
Para: C.
C,
como esquecer você, que veio tão
impetuoso e me apresentou o mundo, o seu mundo. Você foi o primeiro, me moldou
à sua forma e à sua medida, aproveitando as suas incontáveis e deliciosas
experiências pra me ensinar, me impregnar e me fazer apaixonar pelas suas
paixões, ou você acha que eu iria me encantar com Pink Floyd se você não
tivesse me contado de maneira tão gostosa sobre o show deles que você assistiu
na Inglaterra? Ou ainda que ostras se tornariam meu prato favorito se você não
tivesse me oferecido de maneira tão sensual? E que dirá esse sonho arrebatador
de morar no sul da Holanda vivendo de amor e embriagantes em meio aos campos de
tulipas e aos cafés? Nada disso existiria sem você.
Você não sabe, mas me apaixonei
por você no nosso segundo encontro, quando você atenciosamente me contou toda a
historia do vinho que estávamos bebendo enquanto cozinhava, hoje posso
confessar-lhe que não prestei atenção em uma só palavra, enquanto você falava
de safras, cheiros e produção eu só conseguia pensar no efeito que esse homem
extremamente sexy e tão a vontade na sua cozinha possuía sobre mim. Você me
ganhou ali. Mas infelizmente o tempo foi
levando essa displicência e jovialidade que me fez cair de amores e foi
mostrando um outro lado, mais duro, frio e sofrido. Um lado que não suportava
mais nossas discussões casuais sobre caetano x chico, carlton x hollywood, que
não via graça em beber vinho e falar banalidades. E tentando me adaptar a isso
fui deixando pra trás as sutilezas, as surpresas e a emoção. De forma que
perdemos o que a nossa relação tinha de mais especial, a leveza. Já não
conseguíamos ser fogo e paixão, não conseguíamos beijar na boca e nos amar no
chão. Ali já não era mais aquele homem de 40 com uma bagagem imensa de mil
vidas vividas e uma menina de 20 querendo abraçar o mundo desse homem, casando
perfeitamente. Éramos dois estranhos ainda apaixonados, se traindo e pedindo
perdão por amar de mais. Era dor.
Por tudo isso, uso a frase
daquela música triste “tornar o amor real é expulsá-lo de você para que ele
possa ser de alguém”, quem sabe é isso que você precisa, pode ser que tenha se
cansado de ensinar, de lidar com essa grande diferença de mundo e de vivencias
e eu tenha me cansado de tentar ser uma pessoa que eu não sou, de tentar fingir
ter uma idade que eu não tenho, quem sabe estamos prendendo o amor aqui dentro
e impedindo que ele torne-se real. É com dor, meu querido, que eu falo pra
você: vai tentar ser feliz, desejo de coração que você se encontre e volte a
ser aquele homem livre e sorridente que conheci e me apaixonei.
Sua, sempre sua,
Ana
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