Por muito tempo Ana viveu
numa distância segura, acreditando saber muito de si e por isso mesmo se bastar.
Seguia uma vida mesquinha,
controlando afeto e contando amor. Mentido para si mesma, dia após dia, que era
feliz. Quem sabe um dia acreditava. É interessante pensar nas mentiras que as
pessoas contam para sobreviver, é como se não houvesse mais nada para se
apoiarem, precisando criar algo em que agarrar. Com Ana foi assim, ela
realmente pensava ser feliz.
Sobre sua infância, Ana foi
alegre, mas nunca teve irmãos e por isso nunca aprendeu a dividir, tudo era
sempre para si. Também não aprendeu a odiar e a amar muito um mesmo alguém, era
sempre tudo ou nada. Talvez Ana tenha sido uma criança incompleta.
E justamente por não ter tido
com quem dividir, a moça passou todos os momentos importantes sozinha, os bons
ela não tinha com quem sorrir e os maus não tinha em quem se apoiar, alguém que
estivesse sentindo a mesma dor que ela. Ana abominava a sensação de desamparo,
nos tropeços da vida assumiu todos os papeis menos o papel de coitadinha. Ana
queria crescer, ser dona de si, ir embora. Para onde é que Ana nunca descobriu.
Quem sabe ir embora de si?
E assim ela foi sobrevivendo,
colocando roupas que não eram suas ela aprendeu a caminhar sozinha e seguir em
frente. Sua fantasia preferida era a capa de mulher segura de si, que sabia muito
bem o que queria e o que precisava fazer para conseguir isso. Em raras vezes
ela vestia roupa de frágil, de alguém que precisa de cuidado. Mas como nada é
por acaso, num desses raros dias, Ana se encontra com uma pessoa que veste
delicadeza e sutileza. Essa pessoa bota nossa menina no colo e a faz ver que a
vida não é bem como ela sempre viu. Aqui Ana percebe que precisa de
carinho, que o que sempre buscou foi ser amada. Foi preciso anos e situações
extremas para ver que o óbvio estava ali, num colo.
Mas nem tudo é tão simples
assim, há várias ana’s dentro da Ana, todas querendo falar, exibir, chorar,
gritar, cada uma a sua forma. Conseguir uma em comum entre todas elas, tirar a
couraça que sempre a protegeu e ficar nua é um processo longo e que ela vem tentando
todos os dias.
Nesses ultimo tempos, já com
o couro bem mais fino, fora comparada a um peregrino, que anda por ai sem se
deixar lançar, sem amarrar-se ou deixar-se amarrar a nenhum desses lugares. A
moça ficou pensando sobre isso e em uma sacada percebeu que a palavra peregrino
também significa “buscador”, aquele que percorre um caminho de busca por algo
espiritual. Talvez essa seja uma boa definição de Ana, aquela que peregrina em
busca de algo e que mesmo com os pés cansados continua a andar.
Em suas buscas, ela leu, em
algum livro por ai, que se transformar a vida em amor caberá onde quiser. Quiçá
a historia de Ana seja a historia de uma menina que caminhou, caminhou e
caminhará para descobrir que o que precisa é de amor, em todas as suas formas.
"But i want it.
And i need it.
Come and touch me.
Come and reach me.
Through the distance."
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