100 dias de gratidão

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Vozinha querida, tenho sentido tanto a sua falta nesses últimos dias. Falta de alguém que me dê colo e enquanto acaricia meus cabelos fale que tem orgulho de mim, mais do que de todos os outros (apesar de que hoje eu sei que a senhora falava isso para todos os netos, mas na época eu realmente acreditava que era eu quem mais lhe orgulhava). E a senhora partiu tão cedo, nem me viu crescer, né vó. Não me viu tornar  uma mulher. Acho que se hoje a senhora estivesse aqui não se orgulharia muito dos rumos que eu fui tomando, sabe vó, eu me perdi nesse meio tempo em que a senhora se foi, eu me perdi de mim, dos meus pais e até de deus. Sei que a senhora iria ficar muito triste de saber disso, mas eu não soube cuidar das rédeas e quando vi já estava assim, essa desordem irritante e sofrida. Como se fosse um dos seus novelos de linha que embolaram e não dá pra achar a ponta e organizar tudo. E eu, vozinha, nessa procura pela ponta tenho me feito muito mal, por dentro e por fora. A senhora sempre falava que eu era a mais desgarrada, que iria embora conquistar o meu, e cá estou eu, vó, prestes a fazer 20 anos sem ter coragem suficiente pra ir buscar o que é meu. Na verdade eu tenho muito medo, medo de fracassar ainda mais, medo de ir, dar à cara a tapa, não conseguir e ter que voltar pra um lugar que não me pertence mais. Se bem que pra ser sincera eu nem sei se já pertenci a esse lugar. Não posso negar que já fui, e sou, muito amada aqui, mas não há a necessidade da minha presença. Acho que é isso que eu sempre busquei vó, um lugar onde eu seja tão importante ao ponto de sentirem minha falta caso eu me ausente. Aqui não existe isso, não mais, eu me ausentei tanto que hoje não faz mais diferença.


Há mais ou menos um ano atrás eu lhe escrevi desesperada, pedindo que rezasse por nós, pela minha mãe e pelo vô. Acho que a senhora mandou suas melhores vibrações, porque hoje eles estão muito bem, meu avô sarou e minha mãe nunca mais teve nenhuma recaída, tá até feliz de novo. Agora, um ano depois, vou ser mais egoísta. Peço que mande sua melhor energia pra mim, vó. Tenho estado muito cansada. Muito desacreditada do mundo. Tudo tem estado tão mecânico, tão sem sentimento. Acordo já pensando na hora de dormir, e assim, se vai a semana, o mês, o ano. Eu me lembro da senhora doente, prestes a fazer sua ultima cirurgia, sentindo muita falta de ar, num desconforto tremendo, mas continuava lá com aquele sorrisão na cara, dançando e alegrando a nossa casa. Mas eu infelizmente não herdei isso da senhora. Minhas heranças são todas do meu avô. Ele que sempre fala que chega uma hora da vida que viver fica insuportável. Eu, com muita vergonha, assumo que vez ou outra tenho sentindo isso ai. E sinto vergonha porque o meu sofrimento é fútil, é ridículo perto de tantos os outros. Mas eu sei que a senhora há de concordar que a dor que mais dói é aquela que a gente sente. E essa que eu estou sentindo tá me doendo e me deixando fraca, sem vontade e perspectiva de algo novo. Só uma vontade de estar ai junto de você. Então vozinha, aí de onde estiver cuida de mim, que eu vou tentar encontrar aquela menina chorona que só se acalmava no seu colo, e vou fazer de tudo pra que ela continue sendo seu maior orgulho.

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