100 dias de gratidão

sábado, 3 de março de 2012

É Paizão, acho que a vida não tem sido muito justa com a gente, né. Queria tanto que pudéssemos voltar há uns bons anos atrás. Lembra o quanto erámos felizes? Eu ficava ansiosamente esperando as sextas-feiras onde já a noitinha eu ouvia o ronco quase ensurdecedor do motor. Saia correndo e era você chegando. Que alegria mais genuína eu sentia, corria pra te dar o meu melhor sorriso e o meu maior abraço. Entravamos junto em casa onde a mamãe nos esperava rindo, cheia de luz, do meu desespero. E pelos próximos três dias passávamos momentos muito felizes, seja em uma ida à fazenda, à casa da vó, ao seu barbeiro ou até mesmo uma simples manhã preguiçosa de domingo na cama eram motivo muita satisfação, como se ali, nesses lugares, fossemos só nós, mas ninguém. Queria saber, Pai, onde perdemos tudo isso, onde foi parar essa magia, onde perdemos nossa alegria, nossa intimidade? Porque hoje apesar do muito amor que sentimos somos dois estranhos perdidos por aí. Como se fossemos dois barquinhos que após a tempestade não conseguem encontrar o cais. Até então o nosso “cais”, o nosso “porto seguro” era a mãe, mas não podemos culpá-la pela tempestade e pela falta de rumo. Eu sei que você tem muitas magoas para com ela, eu também tenho, mas acredito que ela em momento algum teve a intenção de nos magoar, ao contrário. Mas infelizmente sei também que não podemos mais contar com ela pra nos guiar, isso não pertence a ela. O que nos resta, Paizão, é encontrarmos um novo porto seguro. Seria maravilhoso que pudéssemos ser um do outro. Mas estamos tão distantes que não sei se conseguiríamos. Eu vejo você com essa faceta de homem forte mas eu sei que lá no fundo você tá sofrendo muito, e eu sofro daqui por não conseguir te ajudar. Eu sou covarde, Pai, me sinto tão triste com a sua dor que me ausento da sua vida, como se eu não visse deixasse de existir. Mas só eu sei que não deixa, não tem um dia se quer que eu não me lembre de você, da nossa casa, do nosso quintal, da nossa fornalhinha, da nossa panelinha, do nosso arroz, que era tão pouquinho e tão ruim mas que comíamos como se fosse o melhor arroz do mundo. E era. Do nosso mundo era. Te amo tanto, Paizão. Se eu pudesse pedir só um desejo eu desejaria voltar à um dia desses. Mas isso não pode acontecer e de nada adiantaria. O que eu posso, ou podemos, é tentar nos ajudar agora, e é isso que eu quero e venho propor. Você topa, Pai?

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