Prezada D. Edith
Como vai a Senhora? Espero que
bem. Estou escrevendo essa carta porque fui inundada de sentimentos tão fortes,
tão intensos, que precisavam sair de alguma forma, e achei que uma maneira
interessante seria escrevendo uma carta aberta de agradecimento à Senhora.
No ultimo mês tive o prazer de
conhecer as duas magnificas obras que a senhora criou, a “Casa das Meninas” e a
“Vila Rosa”, já havia ouvido falar de ambas, mas não imaginava a grandeza que
estavam envoltas. Assim, através de um estágio da faculdade, tive a felicidade
de conhecê-las.
Conto-lhe que passei por três
fortes sentimentos nesses encontros. O primeiro deles, que veio de imediato,
foi uma tristeza muito forte de ver aquelas menininhas desprotegidas e aqueles
senhores tão abandonados, tão sem afeto e perspectivas de futuro. Em seguida
fui acometida por um sentimento nada bonito, mas muito intenso, a raiva; uma
raiva muito grande de nem sei quem, talvez de quem tenha abandonado aquelas
pessoas que já deram muito de si pra vida e aquelas outras que ainda têm muito
a dar, ou talvez do estado por não resolver aquela situação ou talvez de mim
mesma por ter tampado os olhos pra aquelas pessoas por tanto tempo, não sei,
talvez uma mistura de ambos. Ainda meio amargurada com tudo isso caiu em minhas
mãos o seu livro “Do Nascer ao Por do Sol”, e confesso-lhe que já tinha uma vontade
muito grande de conhecer a Senhora, pois os idosos sempre falam de ti com muito
carinho, muita gratidão e muita saudade. Assim fui ler o livro com o coração
aberto, e a medida que ia passando as paginas vinha sendo tomada pelo terceiro
sentimento, um sentimento mais forte que a tristeza e a raiva, o sentimento de
gratidão e de orgulho por tudo que a Senhora fez por eles.
Através da sua história, contada
de forma direta e objetiva, eu pude ver que se de um lado existem pessoas, que
tendo os seus motivos, abandonam uma filha recém-nascida que só precisa de
leite e carinho, que largam um pai que já fez tudo que pode pra esse filho, que
abandonam à própria sorte uma mãe doente e sem nenhuma condição de lutar pela
própria existência, do outro lado existe pessoas como a Senhora, que deixam em
segundo plano sua própria vida, sua própria filha e seus próprios pais pra
lutar e ter como ideal a vida desses que com menos sorte foram abandonados.
Pessoas que como a Senhora não tiveram vergonha de ir de porta em porta pedindo
por ajuda e que com muita luta, sacrifício e fé conseguiu criar mais que um
lugar pra essas pessoas morarem, criou um lar, tendo a preocupação de dar um
mínimo de conforto, de bem-estar, de afeto. Não é atoa que a Senhora é tão
queria por eles.
A Senhora agradece em seu livro
ter sido capaz de ir do “Nascer ao Por do sol”, mas o que fica claro, D. Edith,
ao conhecer a Vila Rosa e A Casa das Meninas é que a senhora foi, é e, arrisco
a dizer, sempre vai ser o Sol da vida daquelas menininhas e daqueles idosos.
Assim, após conhecer mais um
pouquinho da história da Senhora, da história por trás desses dois filhos que a
Senhora gerou com tanto carinho e esmero saio com a sensação de que por mais
que o mundo esteja passando por um completo caos, com pessoas sofrendo e
fazendo sofrer, pessoas desamparadas, descuidadas e sendo tratadas como
qualquer coisa menos como seres humanos, sei que ainda há esperança. Sei disso
quando vejo um sorriso no rosto daquele idoso debilitado que já não acredita
ter porque sorrir, sei disso quando ganho um abraço daquela menininha acanhada
que precisa tanto de colo, sei disso quando ouço um muito obrigada daquela
senhorinha bonitnha, de forma que tenho a mais absoluta certeza que vale a pena
viver e lutar por dias melhores. E espero de todo coração que eu consiga de
alguma forma ajudar a regar essa planta fruto da semente que a Senhora plantou de
forma tão grandiosa.
Hoje, D. Edith, eu, as meninas,
os velhinhos e toda Patos de Minas só temos uma coisa para falar pra senhora:
Muito obrigada.
Com muito, muito carinho e respeito
Marina
Mendes
*Edith Gomes de Deus Melo,
criadora e fundadora da Casa das Meninas e da Vila Rosa.
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