Depois de quatro anos juntos tem dois
meses que não te vejo. Dois meses sem ouvir sua voz, sem sentir seu cheiro. Amigos
me contam de você. Sei que está contente com o trabalho e que cortou o cabelo. Mas
não sei o que você tem sentido, o que você almoçou e o que vai fazer nas
férias. Sinto sua falta o tempo todo, em cada detalhe do meu dia falta você. Queria
saber quando nos perdemos. Quando viramos monstros. Nossa insatisfação
aparecendo de forma absurda, sendo expressa fisicamente, nos matando
emocionalmente, tudo numa tentativa frustrada de nos fazer ouvir. - Nos fazer
ouvir- engraçado isso né, nos aproximamos justamente pela nossa escuta, pelas
nossas conversar. Agora já não conseguimos mais nos falar por cinco minutos sem
nos chocar. Parece que não somos mais compatíveis. Eu gritava por carinho você
ouvir que eu precisava de socos. Você me contava todos os dias sobre a sua
falta de liberdade, sua vontade de conhecer o mundo e eu entendia outra coisa,
ia diminuindo ainda mais seu espaço. Um dia veio o primeiro tapa, depois o
arrependimento e a desculpa. A humilhação veio, trouxe o choro, o dormir no
sofá. Reconciliação, sorrisos, ciúmes, empurrão, grito. Não veio mais nada.
Tudo se foi. Ficou um amor doentio e um não aguentar mais. Tenho certeza que entramos nessa
relação para sermos felizes. E fomos. Mas algo aconteceu e isso foi se perdendo
pelo caminho. Fomos nos perdendo. Nunca tive a intenção de te machucar e
acredito que você também não tenha tido, mas nos machucamos muito. Nos tornamos
nossos demônios, despertando os nossos piores lados. Dois meses atrás alguém
gritou chega. Não tínhamos mais recursos pra suportar isso. E acho que hoje
ainda não temos. Mas tenho amor, por isso te escrevo.
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