100 dias de gratidão

domingo, 2 de junho de 2013

Bem que se quis

E ai que a gente pensa que esqueceu. A gente realmente acredita que esqueceu, até que toca no rádio aquela velha música. Tudo volta. A ferida se abre a música acaba e você fica ali, sem saber o que fazer com o que sobrou. É engraçado pensar que sempre sobra algo, uns cd’s na estante, uma bolacha que o outro gosta no armário ou até um restinho de amor bem no fundo do coração.

Outro dia encontrei uma camiseta sua em uma gaveta, sem pensar levei até o nariz e senti o seu cheirinho, aquilo me doeu tanto. Apesar de tudo eu ainda sinto a sua falta. Deveriam criar um manual de como não sentir falta de alguém que se convive diariamente e de uma hora pra outra se afasta, porque tá difícil aprender sem ajuda. Deveriam ensinar como dormir sozinha nessa cama que antes eu reclamava ser pequena e hoje sobra tanto espaço, deveriam ter um capitulo todinho explicando como agora só minhas escolhas importam e como reaprender a ir ao cinema sozinha e depois sentar pra tomar um café sem ter alguém pra discutir sobre o filme. É preciso, mas não é simples, por isso careço de ajuda.

Tem dias que fico pensando o que fizemos com a gente, o quão longe fomos capazes de chegar, o quanto nos magoamos. Como diz aquela música “o quê que a gente não faz por amor?”, amor nunca nos faltou. Acho até que o nosso erro foi por amarmos demais, chegamos a um ponto que o amor em excesso nos sufocava e aquilo tinha que sair de alguma forma, infelizmente saia de uma forma nada digna.

Comigo, por vezes, você foi deus e em muitas outras meu diabo. Um diabo-deus ou um deus-diabo. Com você eu fui grande, dividimos uma casa, planos, sonhos e muitos sorrisos. Com você fui forte, enfrentei uma mudança de carreira, de cidade e de vida. Com você fui doce, aprendi a demonstrar todo meu afeto em pequenas sutilezas. Com você fui feliz, escandalosamente feliz. Mas com você eu também fui um mostro, te amedrontei e te tirei noites de sono. Com você eu fui um ladrão, roubei sua paz. Com você eu fui fraca, você me sugou tudo aquilo que eu tinha de melhor. Com você fui triste, escancaradamente triste.


Às vezes sinto vontade de te chamar pra sentarmos em um café onde pudéssemos conversar, conversar e conversar sobre tudo e ao mesmo tempo sobre nada. Bater um longo papo sobre filosofia ou sobre filosofia nenhuma. Sobre o nada e o tudo. E o meio, que foi isso que nos sobrou. É difícil aceitar esse lugar em que nos colocamos, perdemos tudo, mas ainda não viramos nada. Mas prefiro não fazer isso, sabemos onde vamos chegar e já estou farta de causar e receber feridas. Melhor ficarmos assim, no meio, aparentemente indiferentes.

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