100 dias de gratidão

domingo, 7 de abril de 2013

Para alguém importante

Dizem que a primeira vez se ama mais e que as seguintes se ama melhor. Nada mais certo que isso. Você foi meu primeiro e, meu deus, como eu te amei. Era você e só você. Era carnal, intenso. Era muito. Amava cada fio de cabelo, conhecia cada expressão, cada pinta, cada detalhe. Começou errado, mas por insistência algo que não passaria de um beijo virou vários beijos, depois várias ligação e logo veio um final de semana completo só com nós dois num apartamento sem ver a luz do dia ou outras caras. Nesses dois dias inteiramente nossos eu descobri que só precisava de você, do seu cheiro e do seu gosto, o resto do mundo era só o resto. Em duas horas já sentia sua falta, em uma semana estava loucamente apaixonada e em alguns meses tinha certeza que era amor. E assim fomos indo. Dividimos nosso tempo, nossos cigarros e a nossa cama. Eu te amava mais e mais a cada dia. Aprendi a gostar das suas músicas e você passou a admirar meu papo chato sobre filosofias. Você me fez rir, me fez chorar e me fez mulher. Fizemos planos. Brigávamos muito, muitas cenas de ciúmes, muitos gritos, muito choro e muito sexo de reconciliação. Nos afastamos algumas vezes nesses anos, apareceram outras pessoas, mas não adiantava sempre voltávamos pros já tão conhecidos abraços. O tempo passou e alguma coisa aconteceu, ou melhor, várias coisas aconteceram, e todos aqueles empecilhos que antes fingíamos não ver foram ganhando peso. Ficou insustentável a diferença de idade, de fase da vida, de quereres. E uma hora não deu mais. Tive que pular fora, estava insuportavelmente pesado toda essa bagagem acumulada em tantos anos. Eu já não conseguia mais me ver em todos aqueles desenhos que tínhamos feito para nós. Você chorou, gritou, se desesperou. Mas não dava mais, estávamos em outro tempo. Você me odiou. Foi uma das coisas mais dolorosas que já me aconteceu. Mas foi. Passou, e exatamente por isso hoje eu posso escrever-te sobre. Hoje eu vejo o quanto era errada a nossa relação. Minto! Não era errada, era certa ao nosso modo, ao nosso desespero. Às vezes eu paro pra lembrar e acho bonita a ânsia que tínhamos em ser, é como se soubéssemos que teria um prazo de validade e, por assim saber, tínhamos que viver tudo de bom e de ruim elevado a potencia máxima. De tudo, o que mais me doía era saber que você me odiava tanto, saber que te fiz chorar, mas eu só queria que ficássemos bem, que nos respeitássemos, mas essa palavra não existia na época. Depois desse tempo, vieram outras pessoas, outros amores. Espero que um pouco da raiva tenha se esvaído. Ainda te tenho comigo, é indiscutível que você e aquele tempo são responsáveis por muito do que sou hoje. Se hoje amo melhor foi porque um dia te amei demais.

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