Dizem que a primeira vez se ama
mais e que as seguintes se ama melhor. Nada mais certo que isso. Você foi meu
primeiro e, meu deus, como eu te amei. Era você e só você. Era carnal, intenso.
Era muito. Amava cada fio de cabelo, conhecia cada expressão, cada pinta, cada
detalhe. Começou errado, mas por insistência algo que não passaria de um beijo
virou vários beijos, depois várias ligação e logo veio um final de semana
completo só com nós dois num apartamento sem ver a luz do dia ou outras caras.
Nesses dois dias inteiramente nossos eu descobri que só precisava de você, do
seu cheiro e do seu gosto, o resto do mundo era só o resto. Em duas horas já
sentia sua falta, em uma semana estava loucamente apaixonada e em alguns meses
tinha certeza que era amor. E assim fomos indo. Dividimos nosso tempo, nossos
cigarros e a nossa cama. Eu te amava mais e mais a cada dia. Aprendi a gostar
das suas músicas e você passou a admirar meu papo chato sobre filosofias. Você
me fez rir, me fez chorar e me fez mulher. Fizemos planos. Brigávamos muito,
muitas cenas de ciúmes, muitos gritos, muito choro e muito sexo de
reconciliação. Nos afastamos algumas vezes nesses anos, apareceram outras
pessoas, mas não adiantava sempre voltávamos pros já tão conhecidos abraços. O
tempo passou e alguma coisa aconteceu, ou melhor, várias coisas aconteceram, e
todos aqueles empecilhos que antes fingíamos não ver foram ganhando peso. Ficou
insustentável a diferença de idade, de fase da vida, de quereres. E uma hora
não deu mais. Tive que pular fora, estava insuportavelmente pesado toda essa
bagagem acumulada em tantos anos. Eu já não conseguia mais me ver em todos
aqueles desenhos que tínhamos feito para nós. Você chorou, gritou, se
desesperou. Mas não dava mais, estávamos em outro tempo. Você me odiou. Foi uma
das coisas mais dolorosas que já me aconteceu. Mas foi. Passou, e exatamente
por isso hoje eu posso escrever-te sobre. Hoje eu vejo o quanto era errada a
nossa relação. Minto! Não era errada, era certa ao nosso modo, ao nosso
desespero. Às vezes eu paro pra lembrar e acho bonita a ânsia que tínhamos em
ser, é como se soubéssemos que teria um prazo de validade e, por assim saber,
tínhamos que viver tudo de bom e de ruim elevado a potencia máxima. De tudo, o
que mais me doía era saber que você me odiava tanto, saber que te fiz chorar,
mas eu só queria que ficássemos bem, que nos respeitássemos, mas essa palavra
não existia na época. Depois desse tempo, vieram outras pessoas, outros amores.
Espero que um pouco da raiva tenha se esvaído. Ainda te tenho comigo, é
indiscutível que você e aquele tempo são responsáveis por muito do que sou
hoje. Se hoje amo melhor foi porque um dia te amei demais.
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