Sabe aqueles dias em que uma coisinha
pititinha causa uma catástrofe? Martha Medeiros, explica isso muito bem dizendo
que já aconteceu de quase chorar por ter tropeçado na rua, por uma coisa à toa.
É que, dependendo da dor que você traz dentro, dá mesmo vontade de aproveitar a
ocasião para sentar no fio da calçada e chorar como se tivéssemos sofrido uma
fratura exposta. Ontem foi assim, a dor e o cansaço era tanto que uma briga com
uma pessoa indiferente me fez desaguar o mundo e sentir como se tivesse perdido
alguém. De repente me deparei com um cansaço imenso, monstruoso, de lutar
contra mim mesma, uma exaustão em lutar contra quem eu sou, de esconder e me
fazer outra para poder ser aceita. Aceita por quem se nem eu mesma me aceito? E
aí alguma coisa se rompeu, percebi que mudei tanto para caber em um lugar que
me perdi nesse meio me tornando alguém que não sou, e não quero ser, apenas por
medo de ser rejeitada. É hora de fazer uma escolha, continuar me matando por
dentro em busca de uma aprovação que nunca vai vir ou pela primeira vez na vida
ser eu de verdade, um eu tão guardado e amarrotado que vai ser preciso cuidado
e dedicação pra tomar forma. E mais ainda é preciso saber que sempre que
escolhemos algo, abrimos mão de várias outras coisas. E aí bate a dúvida: será
que essa cidade, esse emprego, essas roupas são as melhores pra mim? Será que
essa história de amor é a minha? Se essas perguntas forem feitas com medo, quem
responde é a cabeça. Mas se forem feitas com amor, quem responde é o coração. E
o coração nunca se engana. Por algum tempo tentei responder com a cabeça, e ela
dizia que sim, que esse é o meu lugar, esses são os meus amigos e esse é o meu
amor. Mas eu não estou feliz. Após muita resistência decidi pensar com o
coração, e ele me diz que aqui não é o meu lugar, não agora. Coração não se
engana, há tempos tenho me sentido sufocada, mudei muito e estou sentindo a
sensação de que não caibo aqui, tudo me aperta, me limita. Depois de me dar
contra disso pensei mil possibilidades, conclui que não adianta, o problema não
é o lugar, não são as pessoas, o problema está comigo e com o rumo que dei para
minha escolhas e meus sentimentos, não importa se eu esteja aqui, bali ou
madagascar, ele vai comigo, por isso é preciso arrumar a desordem interior
para, quem sabe, a exterior encontrar um caminho. O que sei é que perdi a mim
mesma nessa noite, estou em um processo de luto, preciso arrumar forças para
elaborá-lo. É preciso acreditar que a morte da pessoa que fui por 20 anos dói,
mas continuar com ela estagnada vegetando doía ainda mais. É o que o
grandiosíssimo Freud disse há mais de cem anos, “quando a dor de não estar
vivendo for maior que o medo da mudança, a pessoa muda”. Após essa elaboração é
preciso dar lugar a esse novo, pois uma única certeza eu tenho, assim como
Pessoa, cansei de deixar que “os factos mínimos, que antes mesmo a mim nada
fariam, me ferissem como catástrofes”.
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