100 dias de gratidão

segunda-feira, 18 de junho de 2012

De um modo geral esse ano a morte esteve muito presente, vi mães enterrando seus filhos, pessoas perdendo seus amores, amigos sepultando amigos, filhos dando adeus a seus pais. E isso fez com que eu estivesse pensando nela, nos seus desenhos e consequências, no quanto dói o sentimento de injustiça deixado por ela.

Não consigo pensar em dor maior que a dor ao perder alguém que se ama e assim ter que conviver dia após dia com a certeza do nunca mais; nunca mais ver a pessoa; nunca mais ouvir a sua voz; nunca mais sentir o seu cheiro e o calor do seu abraço; nunca mais é o que mais dói.

É uma ferida aberta que lateja e arde dias ímpares e dias pares. É um buraco, uma falta, uma ausência que ninguém nem nada poderão preencher. É uma vontade de mandar tudo a merda pois não há como se conformar que o sol continua a nascer mesmo sem o seu querido aqui. É a certeza que aquele vinho que ele tanto gostava a partir de agora será sempre amargo, é a certeza de que aquela música linda que ele gravou pra você vai te ferir como um punhal, é a certeza de que os almoços de domingo e as tardes de terça nunca mais terão cor. É o sentimento de que se fez pouco, de ter economizado nos ‘eu te amo’ e nos abraços.

Aí vem o momento em que o choque passa, que os pensamentos voltam em ordem e que se tem a consciência de que é necessário seguir em frente, de que é preciso continuar apesar da falta de um membro quase vital. A crueldade de ter que apagar o número do celular, o endereço do email e das redes sociais. Um misto de desespero por não saber como vai ser junto com a certeza de que se terá que reaprender a andar pelo tempo, a amar, a viver. É um acostumar com a vontade de ligar só pra contar do dia e não ter como, é se acostumar que a pessoa não vai mais viver as coisas que antes vocês viviam juntos. É acostumar a existir num mundo que ele não existe mais.

E quando finalmente se consegue dar um passo, um sorriso, a sentir um rastrinho de alegria vem a culpa devastadora, pensamentos latentes de “é errado eu estar sentindo alegria diante do que aconteceu”, “como eu posso estar sorrindo se ele não ta mais aqui pra rir dessa historia comigo”  ou “me sinto péssimo em sair e me divertir, ela iria adorar essa festa”.


E nesse momento é vital que se consiga lidar com esses sentimentos para que o tempo transforme, aos poucos, a dor em saudade. É preciso acreditar com toda fé que a pessoa querida continua viva dentro de ti, que sempre irá existir as lembranças e o amor, e que por isso se deve continuar, você deve isso a pessoa.

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